sábado, 26 de junho de 2010

Histórias de cronópios e de famas- Cortázar

Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio

Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você — eles não sabem, o terrível é que não sabem — dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.

Instruções para dar corda no relógio

Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.

Que mais quer, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não corremos, e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.

domingo, 4 de abril de 2010

Insone , mas parnasiana

A vulgaridade não existe quando há fascínio. Quando nada houver, ofereça chocolates.Não há muita metafísica neles.
Pensava só em chocolates ao passar pela confeitaria , quando avistou bem ao fundo , depois do vidro, a garota que os vendia. Tinha traços tênues e os olhos dela eram tão verdes, quase cítricos, como polpa de kiwi, com linhas de carambolas cortadas formando estrelas discretas e pintinhas mais escuras de cacau. Sentiu uma inveja desmaiada. Os seus eram cor de chuva no rio, enevoados, úmidos e sem elucubrações.
Ela tinha nascido para dentro – insone, mas parnasiana – talvez por isso não tivesse olhos tão tropicais, tinha antes, forças atávicas que a impeliam mais para o norte, muito além do trópico de câncer, para aquele país sem matizes nos quais se esconde o rosto atrás de guarda-chuvas fingindo possuir segredos inconfessáveis.. onde a polidez sucumbe em suicídios lentos. O tédio é que mata, nós é que lhe atribuímos variados nomes.
Sim, é isso. O tédio cortante , lâmina ferida. Concluía olhando a faca ingênua na qual deslizava preguiçosa, a calda escura e muito doce.
A morte não era o que pensava – o suicídio enovela os profundos e atormentados, e é nada poético com facas de serrinha.
Era rasa, rasa tal qual o rio de seus olhos, apenas gostava das formas espiraladas com que se davam com os reflexos do sol naquela faca. Pouco vulgar menos ainda pretensioso.
Era bem verdade: Não sabia afogar-se - tentativa intrépida. O vazio era sua matéria.
Não há tantos mistérios em não tê-los.

Destinos avessos

Havia no canto da boca um laivo de despedida com saliva e ausência. Gesticulando deixava transparecer na língua a queda úmida de palavras não ditas que aos poucos desbotavam, deixando um gosto ocre e um torpor amarelecido por entre os dentes.
Uma distância imensa: céu da boca.
Trouxe as mãos ao pescoço como se pudesse exteriorizar seu sufocamento. As pulsações- dedos e átrios – era lenta mas ar ainda entrava facilmente.
- “Chega a fingir que é dor , a dor que deveras sente”- pensava em devaneio ensimesmado. A boca,o pescoço,as mãos eram um microcosmo em busca de um destino.E as linhas das mãos ,que respiravam sobre a epiderme ,escorriam irregulares dentre as falanges e os mananciais da palma, perpassavam veias formando destinos estes inevitáveis, ramificados sob o leito de pequenos estuários,aquelas árvores azuis de Cortázar -sangue e só.

Meneava a cabeça em esquecimento, tinha seus pensamentos abrandados pela inconsciência. - Nem quiromancia intercede pelos destinos avessos